Introdução

rollei-sp200-thumb.jpg

Confesso que iniciei minha jornada com o Rollei Superpan 200 um tanto "às cegas". Apesar de ter lido a análise detalhada do Alex Luyckx, falhei em não aprofundar minha pesquisa técnica antes de carregar a câmera.

A única premissa que levei comigo a campo foi o comentário do colega que me vendeu o rolo: /"Cuidado, é um filme de contraste forte"/. Se eu soubesse o quanto essa frase era um eufemismo para a personalidade técnica desse filme, teria prestado mais atenção aos manuais desde o dia um. Mas, como dizem, a experiência é o que você ganha quando não obtém o que deseja.

Documentação

Eu deveria ter conferido a documentação oficial do filme em primeiro lugar. Tal como bem disse Linus Torvalds: /"Talk is cheap. Show me the code"/. Na fotografia analógica, o "código" é o datasheet, e ignorá-lo é pedir para ter surpresas no tanque de revelação.

Página oficial vs. Datasheet: Uma Incoerência Curiosa

A página oficial do filme é um bom ponto de partida. Ela resume as principais qualidades: alto contraste, possibilidade de uso como slide (revelação positiva) e tabelas abrangentes de revelação.

No entanto, ao cruzar os dados do site com o Datasheet em PDF, notei uma discrepância que pode confundir os desavisados.

Na tabela de características (/Fact Sheet/) apresentada no site, a *Latitude de Exposição* é classificada de forma conservadora:

Já no PDF oficial (/datasheet/), a história muda de figura:

Observe que no PDF, a *Exposure Latitude* ganha 4 de 5 pontos, sugerindo uma flexibilidade que, na prática — e corroborado pelo texto do próprio PDF que cita uma faixa útil apenas entre ISO 125 e 250 — não é tão elástica assim. Essa "pegadinha" visual nos gráficos pode levar um fotógrafo a crer que pode errar a exposição sem consequências, o que não é verdade para este filme.

O que o Datasheet realmente nos diz

Para além das incoerências visuais, o documento técnico é rico e salvou minha revelação (tardiamente, admito). Pontos cruciais que extraí do documento:

  1. **Sensibilidade Espectral:** O filme tem sensibilidade estendida ao vermelho (até 750nm), permitindo seu uso como filme infravermelho com o filtro adequado.
  2. **Base PET:** Fabricado sobre uma base de Poliéster transparente de 100 microns. Isso garante estabilidade dimensional e uma clareza cristalina, ideal para *scanning* e revelação como slide (positiva).
  3. **Instruções de Filtros:** Há uma seção vital sobre fatores de filtro, essencial para quem gosta de fotografia de paisagem com filtros amarelos ou vermelhos.

Internet: Filtrando o Ruído

Além das fontes oficiais, a comunidade é vasta. O review do Alex Luyckx foi fundamental para minha decisão de usar o revelador D-23, visando domar o grão. Porém, recomendo cautela: em fóruns e no Flickr, há muita informação empírica que deve ser sempre validada com o datasheet oficial.

Origem e Linhagem: Do Céu para o Tanque

Um detalhe fundamental para entender o Superpan 200 é sua árvore genealógica. Este filme é, na verdade, uma "reembalagem" (rebranding) do lendário *AGFA Aviphot Pan 200*. Como o nome sugere, trata-se de um filme originalmente projetado para vigilância e fotografia aérea.

Essa herança explica quase todas as suas características peculiares: a base de poliéster (feita para não romper em câmeras de alta velocidade e resistir a variações extremas de temperatura em altitude) e a sensibilidade estendida ao infravermelho, essencial para penetrar na neblina atmosférica durante voos de reconhecimento. É impossível não traçar um paralelo com o *Kodak Aerocolor IV* (frequentemente vendido como Santa Color ou Amber T400). Enquanto o Aerocolor traz essa tecnologia para o mundo das cores com uma latitude surpreendente, o Superpan faz o mesmo no reino do P&B, porém com um temperamento muito mais dramático e contrastado.

Uso e revelação

Carreguei este filme na minha Pentax MX em *22 de Novembro de 2026* e só fui revelá-lo em *2 de Janeiro de 2026*. Foram exatos **41 dias** dentro da câmera.

Moro em Joinville/SC, e quem conhece sabe: nosso verão é impiedoso. A câmera enfrentou calor extremo, transporte e oscilações de umidade. Felizmente, o datasheet garante armazenamento seguro até 40°C, e o filme provou ser robusto nesse aspecto.

*Uma nota importante sobre o manuseio:* Devido à base de PET transparente, esse filme é suscetível ao efeito de /light piping/ (a luz viaja pela base do filme para dentro do cartucho). Portanto, carregar e descarregar a câmera na sombra é mandatório.

Fotometria: Onde o Filho Chora e a Mãe não Vê

Como ignorei o datasheet inicialmente, fui descuidado. Metade do rolo foi exposto confiando cegamente no fotômetro central da Pentax MX, sem compensar para as sombras ou isolar o assunto. O resultado? Onde errei, o filme cobrou caro com contraste excessivo e perda de detalhes.

R91RSP200PMX-04.jpg
Figure 1: Vista frontal do Museu Oscar Niemeyer

Com o tempo, aprendi a gostar dessa estética "dura" da foto acima, mas não era a intenção original. Já quando tive cuidado técnico, o filme brilhou. Na imagem abaixo, usei um filtro Hoya K2 (Amarelo) e compensei a exposição em +1 ponto, o que ajudou a separar a neblina da vegetação.

R91RSP200PMX-18.jpg
Figure 2: Vista do mirante da serra Dona Francisca em um dia com neblina

Revelação com D-23: O Susto da Emulsão

O D-23 é um revelador que eu gosto muito: simples (apenas 2 componentes) e domador de contrastes. Sabendo da fama granulada do Superpan, o casamento parecia perfeito.

Colocar o filme na espiral foi muito fácil. A base de PET é mais rígida e desliza suavemente na espiral Paterson. Porém, o susto veio logo em seguida.

Decidi testar a solução de agente molhante com TEXAPON usando a ponta da lingueta do filme que eu havia cortado. Mergulhei o pedaço na solução e, quase instantaneamente, vi o revestimento cinza escuro da emulsão se desfazendo e boiando no líquido.

Corri para o datasheet e lá estava, na página 4, seção *PRE-WATERING*:

"Pre-watering is recommended for short development times [...] and films with a pronounced anti-halo layer."

O Superpan 200 possui uma camada anti-halo (AHU) solúvel fortíssima. A instrução é clara: banho de água pura por 1 minuto *antes* do revelador.

lingueta.jpg
Figure 3: Lingueta de teste: o "desprendimento" da camada anti-halo

Logo se a inteção é revelar em /stock/ para devolver o revelador para a garrafa, a pré lavagem com água para remoção dessa camada é mandatória.

Feita a pré-lavagem (a água saiu preta como café!), segui com o D-23. Programei o tempo baseando-me no D-76 Stock (10 min) + 10%, totalizando *11 minutos*.

O erro na agitação

Outro detalhe que deixei passar no datasheet (Página 4, seção DEVELOPMENT):

  • **Recomendado:** Agitação inicial de 60s, depois 5s a cada 30s.
  • **O que eu fiz:** Agitação inicial de 60s, depois *10s* a cada 30s.

Essa agitação mais demorada provavelmente acentuou o contraste e o grão, características que o filme já tem de sobra. Felizmente, a ação compensadora do D-23 salvou o dia nas fotos bem expostas.

R91RSP200PMX-23.jpg
Figure 4: Minha filha e eu brincando no "Parque das águas" em Joinville

Ao final, pendurei o filme no varal e me impressionei. A base PET seca perfeitamente plana (graças à camada /Back Layer Anti-Curling/ descrita no esquema de camadas do datasheet) e é transparente como vidro. Uma beleza de se ver no negatoscópio.

superpan200-secando.jpg
Figure 5: Tira do Superpan 200 secando no varal: planeza absoluta

Digitalização e finalização

*Nota:* Este tópico é um resumo contextualizado. O fluxo detalhado será movido posteriormente para a seção específica de digitalização do site.

Como usuário de GNU/Linux, meu fluxo é 100% *open source friendly*: Vuescan para o arquivo bruto e Darktable para a "alquimia" das cores.

Para garantir consistência, segui o método de travar a exposição (/Lock exposure/) no Vuescan. Amostrando uma área não exposta da base transparente do filme, o software calculou o valor RGB de **1544**. Mantive esse valor para todo o rolo.

Para a inversão no Darktable, utilizei uma cartela de cores RGB fotografada sob luz controlada para calibrar o módulo *Negadoctor*.

R91RSP200PMX-35.jpg
Figure 6: Fotografia de calibração - RGB chart

A calibração revelou o temperamento do filme: o Rollei Superpan 200 tem pavio curto. Nas fotos bem expostas, o ajuste foi mínimo. Nas fotos onde errei a medição, a falta de latitude cobrou seu preço, exigindo ginástica no pós-processamento para recuperar sombras que simplesmente não existiam.

R91RSP200PMX-26.jpg
Figure 7: Exemplo de fotografia onde tive mais atenção com a fotometria

Conclusão

O Rollei Superpan 200 é um filme com "personalidade forte". Ele não aceita desaforo na fotometria, mas recompensa o fotógrafo cuidadoso com uma nitidez cortante e uma estética única.

Sua origem como filme de vigilância aérea AGFA explica o porquê de ele ser uma ferramenta tão potente: ele não foi feito para ser "gentil", mas para ser preciso e nítido sob condições adversas.

R91RSP200PMX-37.jpg
Figure 8: Parque Recanto Diamante

A documentação da Rollei, apesar da pequena confusão nos gráficos de latitude, é um exemplo a ser seguido: detalhada, técnica e honesta sobre a necessidade de pré-lavagem e agitação específica. A base PET é um show à parte, facilitando muito o manuseio e a digitalização.

Já considero este meu filme ISO 200 favorito até o momento, apesar do custo proibitivo e da dificuldade de encontrá-lo no Brasil. Tenho mais um rolo guardado na geladeira (a 8°C, como manda o figurino!) e o próximo experimento será com o revelador **Adox M-Q Borax**.

Assim que essa nova alquimia acontecer, voltarei aqui para atualizar os resultados. Até lá, fica a lição: leia o manual antes, não depois que a emulsão começar a boiar!

Referências Bibliográficas